E assim vivemos nesta Matrix, tal qual lagartas aprisionadas em suas crisálidas...
Quando a borboleta?
Pérsefone Hades
Buscando a profundidade do Eu na reflexão, na poesia, na arte e na natureza.

A Persistência da Memória (detalhe) - Salvador Dali
Algumas experiências, em nossas vidas, têm mais peso que outras. Há as que nos acompanham para sempre.
Era o ano de 1964, início do primeiro ano escolar. Um belo dia de sol brilhando ainda com as luzes do verão.
Saia azul de preguinhas, blusa muito alva de golinha arredondada, meia ¾ branca, sapatinho preto novinho em folha; cadernos encapados e lápis apontados, pasta onde guardar tudo, um cheirinho de coisa nova. Tudo bonito e novidade.
Mãos dadas, mãe e filha, lá se vão para o primeiro dia na escola. Caminho estranho, cheio de novidades, casas diferentes, algumas mais bonitas, outras muito velhas.
O calor da mão de mamãe dava segurança, seus passos firmes mostravam o caminho e nada havia a temer. A voz suave dizia que seria um dia maravilhoso, aprender era uma coisa boa, poder ler tudo seria incrível. Desenhar, fazer contas...
A escola parecia enorme. Um muro muito alto, um portão largo e aberto de par em par parecia dizer: “Bem vindos!” O prédio retangular, como tinha janelas e eram enormes!
Mãe e filha adentraram e desceram a rampa que dava acesso ao pátio. Nossa como tinha gente! A maioria das crianças usava o mesmo uniforme, algumas usavam roupas comuns e chinelos, como se fossem brincar.
As mães tagarelavam entre si. Mamãe parecia um pouco apreensiva, mas sorria cordialmente quando colocou sua filha na fila indicada para a professora Marília e ficou ao lado esperando. Muito alarido, crianças e mães falando, e as duas se olhando.
Bate o sinal e todos começam a andar, as mães ficam, a menina corre de volta para a mãe, não queria ir, tinha medo de ficar sem a sua mãe.
A mãe tenta acalmar a menina, que já chorava, dizendo que ia ficar ali esperando e que ela podia seguir tranqüila com seus novos coleguinhas. Mas a pequena não queria ir. Então como todos já tivessem entrado, a mãe acompanhou a filha até a sala de aula e a colocou nas mãos habilidosas da professora e continuou ali ao lado de fora, como para dar segurança à filha.
Quando a menina foi levada para a sua carteira, a professora foi doce como a mamãe e também assegurou que a mãe ficaria esperando. A menina olhava as outras crianças quietas e calmas e acabou por serenar.
Neste primeiro dia a professora começou pela letra A e ensinou a escrevê-la e todo um universo novo se descortinava.
A sala de aula tinha muitas mesas acopladas a cadeiras que eram chamadas carteiras; o chão de assoalho com tablado na frente onde ficava a lousa e a grande mesa da professora, cheia de livros e cadernos sobre ela três imensas janelas que davam para frente da escola e podia-se ver a rua; e uma porta com uma janelinha de vidro; era outro mundo, tudo parecia maior.
Dona Marília era bonita, alta, magra, longos cabelos castanho-escuros, olhos inteligentes e meigos, voz suave e calma, mantinha todos atentos à lousa e seus cadernos e cartilhas; uma mulher adorável, que facilmente se percebia, adorava estar ali conosco.
Os dias iam se passando e depois de um tempo, disputávamos quem carregaria a bolsa da professora; a menina já não se lembrava das lágrimas do primeiro dia, e tinha sempre uma descoberta nova para levar para casa e dizer à mãe o que aprendera.
Os cadernos iam sendo utilizados e tinham ali as primeiras letras; a lição de casa, sempre em grande quantidade nos ocupava por um bom tempo extra quando voltávamos para casa.
Todas as lições foram aprendidas e passamos, com louvor, para a segunda série.
A Cartilha
Um livrinho retangular, grosso para nós, naquela idade, pois apenas conhecíamos livrinhos finos e cheios de figuras. A capa mostrava uma criança andando por um caminho com um arco-íris no céu, daí seu nome: ” Caminho Suave”.
A primeira lição A de abelha, depois B de boi, C de cão, D de dado e assim por diante. Começamos pelas vogais e repetíamos infinitamente os movimentos que formavam cada letra. Hoje não sei se conseguiria repeti-los com a técnica que nos era ensinada. Parecia uma ciência muito difícil e importante, repetir os caracteres daquela forma.
Aos poucos as letras se juntaram e B com A ficava BA e se uníssemos dois BAs, tínhamos a palavra BABA ou BABÁ. Mais um pouco e se formavam aos nossos olhos atenciosos, frases como: “O boi baba”, “A babá ninou o bebê”. Nossa que incrível!
Imagino que todos nós passamos por estes momentos de pura magia, quando descobrir as letras e poder lê-las em qualquer lugar era o mais espantoso dos feitos.
E foi pela dedicação da Dona Marília, que me capacitei a estar aqui agora escrevendo e relembrando-a com ternura. Aonde quer que a senhora esteja, Dona Marília, o meu muito obrigada, e que seja abençoada pela sua dedicação a todos que alfabetizou.
Perséfone Hades
Publicado em http://www.poesias.omelhordaweb.com.br/pagina_autor.php?cdEscritor=1077
Era irresistível aquela sensação, meio adormecida, meio acordada, permanecia na cama entre divagações e sonhos, após a dose de soníferos que ela tomara para não pensar.
Perséfone Hades
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A noite! porque deve ser tão longa? (Há um segundo você estava aqui...)
Minha cabeça dói...
O apartamento em desordem, o furacão da minha fúria passou por ele, fotos sobre a cama, roupas sobre a mesa, livros espalhados nos quatro cantos, o sofá massa disforme em frente à TV ligada. Notícias do Oriente Médio, Américas utópicas, Áfricas famintas, Ovnis no Pacífico, ondas gigantes na Sumatra e em minh’alma...
Estas roupas estão fora de moda... Estes livros não têm mais sentido... Sou eu que não faço sentido... Estendido neste chão, olhando o teto infinito e este ventilador que cresce e se aproxima... Como em turbilhão trás lembranças de alguém que devo ter sido.
A fumaça se torna bruma no apartamento pequeno, cinzeiros espalhados, quantas pontas de cigarros... Um maço meio amassado adverte: fumar faz... faz minha noite passar, talvez menos vagarosa.
Cansado, olhos pesados, inchados; lembro que bebi demais, mesmo assim não durmo. Os soníferos não fazem mais efeito, mas mesmo assim engoli alguns.
A máquina de escrever continua com a mesma folha em branco há dias, meu editor já cobrou todos os prazos e está para desistir de mim. O ventilador de teto barulhento ri-se e diz que já abdiquei de mim mesmo.
Uma réstia de luz surge na janela, meus olhos fecham, meu corpo não responde ao apelo de minha bexiga, abandono-me a sensação parestésica de meus membros...
...
Nossa! Parece que passou um caminhão por cima de mim... meu corpo todo dói. Sinto uma sensação pegajosa em toda a superfície de minha pele, suor? Minhas roupas estão molhadas, meus cabelos grudados na face, os olhos teimam em não abrir, meus membros ainda estão anestesiados, ouço meu coração dentro dos ouvidos, bate devagar como se quisesse parar.
Há mais alguém no apartamento, mas tenho certeza de que tranquei as portas, será que ela voltou? Desta vez a briga tinha sido para valer, eu como sempre tinha “pisado na bola”. Por que era mestre em fazer isso? Meus sentimentos estavam confusos há muito, eu buscava aventuras para meus romances, e ela sofria com isso. Eu sabia que ela me amava, e eu também a amava, mas... Bom talvez isso não importe agora.
Os sons se multiplicaram e parece que estou no meio de uma multidão. Os olhos não abrem, mas sou capaz de sentir reflexos acima de mim que correm como se eu estivesse em um túnel.
...
Esta é a sensação mais estranha que tive em toda minha vida, estou assustado! Vejo meu corpo sobre um leito de hospital, muitas máquinas à volta. Há um tubo em minha boca e muitos fios espalhados pelo meu tórax que se dirigem a um monitor cardíaco?
O que houve? Estou olhando tudo do teto desta sala, sinto-me leve e flutuo como uma pena no ar. Vários profissionais se revezam, observando os aparelhos conversam entre si, mas não consigo entender o que dizem. Uma luz muito forte surge e nada mais é visível, é um grande espaço branco...
Perséfone Hades
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