segunda-feira, 11 de maio de 2009

Reflexões - Saint Exupèry

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“Aceito provisòriamente as verdades contraditórias do soldado que procura ferir e do médico que tenta curar, embora ao meu nível não se possa distinguir delas o fecho da abóbada. Longe de mim conciliar numa beberagem morna bebidas geladas e bebidas a ferver. Não gosto que firam ou curem moderadamente. Castigo o médico que nega os seus cuidados, castigo o soldado que evita magoar. E pouco importa a mim que as palavras se desafiem! Acontece que só essa armadilha, cujos materiais são diversos, apanha na unidade a minha presa, isto é, determinado homem dotado de certas virtudes e não outro.

“Procuro às apalpadelas as tuas divinas linhas de força e, na falta de evidências que não são próprias da minha condição, digo que tenho razão na escolha dos ritos do cerimonial, se acontece que eles me libertam e me deixam respirar. Assim o meu escultor, Senhor, que dá certa dedada à esquerda, embora não saiba dizer por quê. Só assim parece carregar o seu barro de poder.

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“Caminho para ti, à maneira da árvore que se desenvolve segundo as linhas de força da sua semente. O cego, Senhor, não sabe nada do fogo. Mas há, no fogo, as linhas de força sensíveis nas papilas. E ele caminha através das silvas, porque toda a metamorfose é dolorosa. Senhor, eu vou até junto de ti, ao abrigo da tua graça, ao longo da encosta que faz uma pessoa realizar-se.

“Tu não desces até junto da tua criação e eu, para me instruir, só passo contar com o calor do fogo ou a tensão da semente. E o mesmo a lagarta, que não sabe nada das asas. Não é a marionete que me há de informar das aparições de arcanjos. Dir-me-ia ela alguma coisa que valesse a pena? É inútil falar de asas à lagarta, como é inútil falar de navio ao forjador de rebites. Basta que existam, pela paixão do arquiteto, as linhas de força do navio. Pelo sêmen, as linhas de força das asas. Pela semente, as linhas de força da árvore. E que tu, Senhor, simplesmente existas.

“Glacial, Senhor, é por vezes a minha solidão. No meio do deserto do abandono, cheguei a pedir um sinal. Mas tu me iluminaste um dia, por meio de um sonho. Fiquei a compreender que todo o sinal é vão, porque, se tu és da minha ordem, não me obrigas a crescer. E que haveria eu de fazer de mim, Senhor, tal como sou?

“É por isso que continuo a caminhar. Vou elaborando orações novas, que nunca obtêm resposta. Tão cego estou que só um fraco calor nas minhas papilas murchas me guia. Apesar disso louvo-te, Senhor, por não me responderes. Se eu encontrasse o que procuro é porque teria acabado de me realizar.

“Se tu gratuitamente desses o passo de arcanjo na direção do homem, o homem ver-se-ia terminado. Não serraria mais, não forjaria mais, não combateria mais, não curaria mais.

"Não mais varreria o quarto, nem acariciaria a amada. Dar-se-ia porventura ele ao trabalho de te honrar com a sua caridade através dos homens, se te contemplasse? Depois de construído o templo, passo a ver o templo e não as pedras.

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“Senhor, sinto-me tão velho e tão fraco como as árvores quando o inverno sopra. Farto dos meus inimigos e dos meus amigos. Pouco satisfeito, ao pensar que me vejo obrigado a matar e a curar ao mesmo tempo. É que me fazes sentir a necessidade de dominar todos os constrangimentos que tornam tão cruel a minha sorte. E, no entanto, constrangido a subir do menor número de problemas até à morte dos problemas, até ao teu silêncio.

“Digna-te, Senhor, para tua glória, estabelecer na unidade aquele que repousa a norte do meu império e foi meu inimigo amado, e o geômetra, o único verdadeiro, meu amigo, e eu próprio, que já passei, ai de mim!, a crista da montanha e deixo para trás, como que na vertente vencida, a minha geração. Digna-te adormecer-me nas profundidades dessas areias desertas onde trabalhei tanto”.

(Cidadela – capítulo CCXIII – Antoine de Saint-Exupéry)

7 comentários:

  1. Amigos.
    Não sou jornalista nem escrevo bem.
    Sou aposentado, recebendo do INSS e tendo o IR descontado na fonte. Não recebo as benesses de nosso apedeuta mor que tem pensão do INSS acima do máximo, isento de Imposto de Renda por se achar perseguido político, ou melhor, por se anistiado político.
    Luto com as armas que tenho que é um blog, como forma de desabafar ao ver tanta roubalheira, falta de ética, falta de honestidade e principalmente falta de vergonha na cara desta quadrilha que tomou de assalto o Palácio do Planalto.
    Quero convidar os amigos a participarem da minha forma de protesto, o blog Brasil – Liberdade e Democracia - http://brasillivreedemocrata.blogspot.com/.
    Se não levantarmos nossas vozes em protesto o que será deste país para nossos filhos e netos?
    Agora é a hora de lutarmos por uma pátria livre democrática, e sobre todo com governantes honestos e éticos.

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  2. belo!...e par ti...

    "Ima phuyun jaqay phuyu."

    bem-haja.

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  3. Sopmos todos buscadores nesse caminho que por hora caminhamos.

    adoro vir por aqui

    afagos

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  4. Essas suas reflexoes sempre aparecem nas melhores horas.....gostei de mais...

    bjao

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  5. Que maravilhar... é o que posso dizer diante de tamanha sensibilidade e veemência de escrita que cria em nós uma ânsia de alcançar o final como se fosse ele uma melodia e é!
    E as fotos ...nossa!
    beijos

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  6. Obrigado pelo carinho no comentário em meu blog.
    Apareças quando quiser, sempre serás benvinda.
    Abs
    Older

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Obrigada por sua visita, é muito estimulante que meus textos estejam sendo apreciados pelas pessoas, acho que esta é a realização de todo autor.
Beijos no coração de todos e LUZ sempre...
Perséfone