quarta-feira, 1 de abril de 2009

Memórias III

Naquelas épocas, o tempo andava devagar, como se quisesse saborear cada pequeno naco da passagem do sol e da lua.

O sol brilhava com muita intensidade, mas seu calor era gostoso na pele, lembrando o ventre da mãe. As manhãs pareciam render muito, os almoços feitos de forma lenta e artesanal com amor e carinho.

A escola nos entretinha e ensinava coisas de um mundo que queríamos conhecer, tudo era novidade.

As tardes modorrentas, à sombra do abacateiro ou do caramanchão de maracujá doce, o cheiro de flores no ar, a poeira vermelha subindo em nuvens às brisas de primavera.

Crianças a beira do pequeno córrego que escorria do tanque, com varas feitas de galhos secos e na ponta do fio uma folha amarrada, sonhando com pescarias.

O gato dormindo sob a goiabeira ou sob a janela do quarto de mamãe. O cão vira-latas da melhor espécie, deitado na área curtindo o calor do final de tarde.

Tudo calmo, cada detalhe não escapava. Tínhamos a eternidade para observar os movimentos lentos da lesma sobre a grama, do caracol que procurava o lugar mais fresco e úmido para botar, a formiga no trabalho de cortar preciso e sem pressa, o caminhar tortuoso de uma joaninha nas folhas da roseira.

O mundo parecia mais bonito, limpo, cheiroso, tranqüilo...

A noite descia lânguida, namorando longamente com a tarde, o sol via a lua surgir tímida e beijava-a com seus últimos raios num cumprimento de boa noite lento e amoroso. Ali deitados na grama, com todo o Universo acima de nós, ficávamos a divagar sobre as existências, sobre a vida, e quase que podíamos tocar as estrelas. Papai e mamãe de mãos dadas, aconchegando-nos e brincando de contar estrelas conosco. Às vezes, uma estrela cadente, e uma conversa tola sobre discos voadores, outros planetas, um devaneio sem fim...

O sono era reparador, cheios de sonhos alegres, sonhos luminosos com muita luz e cores. Acordar pela manhã era uma festa, a felicidade de ver novamente o olho do sol.

Naquela época o tempo caminhava e saboreava o prazer de ver o espreguiçar de cada folhinha do jardim...

giverny-franca-jardim-da-casa-de-monet

Giverny - França - Jardim da casa de Monet

Perséfone Hades

Publicado em http://www.poesias.omelhordaweb.com.br/pagina_autor.php?cdEscritor=1077

2 comentários:

  1. o texto complementa perfeitamente o quadro ^^

    eu queria esse tempo mais lento...


    www.thiagogaru.blogspot.com

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  2. O sol rasga os panos do horizonte
    Em pacífico brilho de sua magnitude…
    Cadenciado ondular que em mar bronze,
    Excelsa beleza no marulhar da virtude!

    A rocha na ânsia do dia, bebe sedenta do mar,
    Firmada num profundo e desigual chão azul …
    Cristalizadas águas reflectem o planar,
    Das majestosas e imperais… gaivotas do sul!

    Gostava que comigo
    Desse asas á sua imaginação,
    No… “Portal da rocha… penedo do guincho!”

    Um bom fim-de-semana,
    Com muita inspiração
    E na mente… um sorriso!

    O eterno abraço…

    -MANZAS-

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Obrigada por sua visita, é muito estimulante que meus textos estejam sendo apreciados pelas pessoas, acho que esta é a realização de todo autor.
Beijos no coração de todos e LUZ sempre...
Perséfone